“Humanidades Digitais” ? copy

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Conforme já destacou Mathew Kirschenbaum [2010], as discussões sobre “O que são as humanidades digitais” têm proliferado de tal maneira que os textos com este tema já podem ser considerados um gênero à parte. Aqui, apenas comentaremos algumas definições interessantes, para contextualizar o seminário que propomos. Começamos destacando que o termo “Humanidades Digitais” tem sido usado de modo bastante polissêmico.  Por exemplo, o chamado Manifesto das Humanidades Digitais usa o termo para designar ora uma “comunidade de práticas“, ora uma “transdisciplina“; há autores que o usam para designar um “campo acadêmico”, outros, uma “atividade“. Essa multiplicidade de perspectivas é marcante, e tem gerado discussões em inúmeros eventos e publicações da área. Mas se as Humanidades Digitais são uma prática, o que praticam? E se são um campo de estudo, o que estudam?

Screen Shot 2013-03-21 at 8.29.46 PMTomemos primeiro a acepção do termo como “prática”: Paris O’Donell, por exemplo, define “Humanidades Digitais” como uma “atividade interdisciplinar que transfere para os meios digitais o trabalho tradicional com textos, objetos culturais e outros dados, com isso estendendo radicalmente seus usos potenciais”. Ecoa aí uma afirmação recorrente, ressaltada no próprio Manifesto: as HD “incorporam os métodos, os dispositivos e as perspectivas heurísticas  das ciências humanas e sociais, ao mesmo tempo em que mobilizam as ferramentas e perspectivas singulares abertas pela tecnologia digital”.

Nesse contexto se inserem os inúmeros projetos que tem sido conduzidos, ao redor do mundo, sob o rótulo de “Humanidades Digitais”, dedicados a construir bibliotecas, dicionários, corpora, e outros instrumentos digitais de organização da informação e do texto.

5O número de centros de pesquisa, associações, publicações, eventos científicos e páginas web associados às práticas em “Humanidades Digitais”, bem como pelo volume de financiamento dedicado a essas iniciativas, é de fato impressionante. Segundo dados do Centro de Humanidades Digitais do University College, existem hoje no mundo 114 centros de pesquisa “físicos” filiados às Humanidades Digitais, espalhados em 24 países, e os investimentos totais nas pesquisas nesse campo ao redor do mundo superam  hoje os 40 milhões de dólares. A Alliance of Digital Humanities Organizations (ADHO), organização que congrega as diversas iniciativas no campo, foi fundada em 2002 – entretanto, a primeira conferência chamada “Digital Humanities” foi realizada já em 1989, como uma ação conjunta da Association for Computers and the Humanities e da Association for Literary and Linguistic Computing; desde então, a conferência tem sido realizada anualmente, e  surgiram numerosos outros eventos em torno do tema.

6Destaca-se, entre eles, o ThatCamp de 2010, evento no qual foi redigido e publicado o Manifesto das Humanidades Digitais , documento que expressa o estado da arte e as perspectivas atuais do campo. Será interessante destacar aqui, na declaração final do Manifesto, o destaque conferido à “integração da cultura digital na definição da cultura do século XXI“, já que esse espírito de comprometimento com a cultura digital ajuda a compreender uma característica da produção acadêmica na área: a centralidade dos recursos eletrônicos de publicação, comunicação e debate. Assim, há um grande número de sites, wikis e blogs dedicados ao tema – como se pode examinar, por exemplo, na listagem agrupada pela Universidade de Nova Iorque. Não seria exagero dizer, de fato, que é nesses ambientes eletrônicos, mais que através dos recursos tradicionais, que este campo mostra sua presença mais forte. Ainda assim, as publicações no modelo mais clássico dedicadas ao tema também vem crescendo nos últimos anos ; pode-se citar como emblemáticos o livro pioneiro, Companion to Digital Humanities, a coleção Topics in the Digital Humanities da Universidade de Illinois, e os periódicos Digital Humanities Quarterly, Digital Medievalist, e Digital Studies – Le champ numérique. Em todas essas esferas, verifica-se o crescimento do campo: o número de assinantes de periódicos especializados, participantes de congressos, cursos, listas de discussão e associações ligadas às Humanidades Digitais têm aumentado exponencialmente, em particular entre 2009 e 2011. Assim, do ponto de vista estritamente quantitativo, as chamadas Humanidades Digitais parecem conformar-se como um campo em crescimento ao redor do mundo.

A marca comum dos projetos conduzidos nesses centros tem sido a intricada relação entre as práticas tradicionais e as novas tecnologias.

Screen Shot 2013-03-21 at 8.36.36 PM Tome-se por exemplo o Thesaurus Linguae Graecae, exemplo emblemático no que remete à “transferência” do saber acadêmico tradicional ao ambiente digital (a que se referia o trecho do Manifesto que destacamos acima), e à “radical expansão” do uso dos textos (a que se refere O’Donnell). Projeto pioneiro iniciado em 1972, e que constitui hoje a maior e mais bem trabalhada coleção de textos clássicos sob forma digital. O portal TLG oferece milhares de textos clássicos anotados, cujo conteúdo reunido forma um tesauro, ligado a uma base de dados contendo comentários sobre os textos, seu contexto histórico, e sua história editorial. Todas essas informações podem ser editadas, ou seja, alteradas, pelos próprios leitores na própria plataforma. Um segundo exemplo emblemático dos projetos no campo seria o HyperCities, que ilustra a expansão das Humanidades Digitais na direção de outros objetos culturais além do texto, a mobilização de outros saberes tradicionais além da filologia, e o caráter transdisciplinar do campo. O HyperCities criou uma plataforma que permite visualizar diferentes cidades do mundo em suas diversas camadas históricas, nas quais é possível consultar desde os mapas com imagens de satélite como os mapas mais antigos disponíveis para cada localidade (o mais antigo deles sendo um mapa de Berlim, de 1237), em uma mesma interface. A implementação do sistema precisou unir conhecimentos das áreas de história, geografia e urbanismo às mais recentes tecnologias de georreferenciamento e desenho computacional. Essas duas iniciativas são exemplos de construções de ferramentas que ajudam na criação e na manipulação de representações, destacada por John Unsworth.

Screen Shot 2013-03-21 at 8.38.58 PMNos dois casos, observa-se a união do tradicional com o novo, do “humano” com o “exato”: de um lado, o conhecimento acadêmico tradicional – referente aos textos clássicos e sua linguagem, à história das cidades ou à cartografia histórica – precisa ser muito sólido para que as ferramentas desenvolvidas se transformem em instrumentos de pesquisa acadêmica relevantes em suas áreas. Ao mesmo tempo, esses saberes precisam aliar-se ao conhecimento de tecnologias de ponta, para montar a rede de interreferências (no caso do Thesaurus) e o georreferenciamento (no caso do HyperCities). Emerge aí um aspecto crucial Humanidades Digitais: devemos compreender que o termo “transdisciplinar” assume, nesse campo, um sentido pleno. Não é possível a um geógrafo, a um historiador, a um filólogo, participar da criação de ferramentas como o HyperCities ou o TLG sem efetivamente compreender como elas funcionam. Noutros termos: não se trata de encomendar um banco de dados, uma plataforma, um desenho de visualização a um “especialista em computação” – trata-se, efetivamente, de conceber classificações, indicadores e formas de leitura em conjunto com os profissionais da área da computação. Nem os pesquisadores treinados nas ciências computacionais nem os pesquisadores treinados nas humanidades podem, neste tipo de iniciativa, permanecer limitados a suas áreas de especialidade: esses projetos demandam a plena intercompreensão entre esses pesquisadores, todos eles, neste movimento, tornando-se sujeitos da tecnologia – no caso dos humanistas, aprendendo, efetivamente, a “pensar como seus computadores”.

Screen Shot 2013-03-21 at 8.39.59 PM Ora: esta interpenetração entre antigas “especialidades” acaba refluindo sobre as próprias especialidades envolvidas, abrindo seus poros, transformando-as, remodelando suas fronteiras. Vemos aí a ponte entre as definições que tomam as Humanidades Digitais como uma prática e as que usam o termo para designar um campo de estudos. Podemos compreender agora o alcance da definição de James Cummings, para quem “Humanidades Digitais” designa um campo de estudos cujo objeto de (auto-)reflexão é a própria aplicação da tecnologia digital nas investigações em humanidades. No mesmo espírito, T. Chiotis toma as Humanidades Digitais como um campo dedicado a investigar os impactos das mídias digitais sobre as disciplinas em que são usadas. Screen Shot 2013-03-21 at 8.40.52 PM

A definição de Chiotis se assemelha à de Cummings no sentido de tomar as HDs como um campo de estudos, mas amplia consideravelmente seu objeto: do impacto do digital nas humanidades para o impacto do digital para as disciplinas em geral. De fato, para Chiotis os meios digitais transformam a nossa maneira de “adquirir conhecimento e de experimentar o afeto”. Podemos relacionar isso com o que outros autores têm dito sobre o impacto da difusão digital sobre a nossa relação com o texto e a leitura de um modo geral, e sobre as disciplinas do texto de um modo particular.

Screen Shot 2013-03-21 at 8.41.49 PMPara G. Crane, por exemplo, as novas ferramentas digitais disponíveis para o tratamento de textos fazem vislumbrar a criação de “um espaço dinâmico para a vida intelectual que será tão diferente do precedente como a cultura oral é diferente da cultura escrita“. Nessa perspectiva, os impactos da união entre as práticas acadêmicas tradicionais e as novas tecnologias digitais atingiriam não apenas o conhecimento “humanístico”, mas sim o conhecimento em geral; e portanto, se tomarmos como um dos objetos de interesse daquilo que se convencionou chamar “as humanidades” a grande questão do conhecimento – sua história, sua epistemologia, seus sentidos – podemos acompanhar a afirmação de Chiotis sobre o interesse das Humanidades Digitais no impacto geral das tecnologias eletrônicas num âmbito geral.

17Essa incursão ao reino da técnica computacional, entretanto, termina por demandar das humanidades uma autoanálise crítica – pois, de fato, nos obriga a fiar com novas fibras aquele fio com que se forma o tecido do trabalho das “ciências humanas”: o fio dos nossos olhares de leitura e dos nossos mecanismos interpretativos. Nesse sentido, podemos terminar essa reflexão com a definição provocativa de Alex Reid: as humanidades digitais, simplesmente, são as humanidades do momento atual.

Assim buscamos mostrar um pouco do que tem sido discutido e realizado no campo das chamadas Humanidades Digitais nos anos recentes. A multiplicidade de pontos de vista sobre este campo em formação, aqui apenas esboçada, enriquece e anima o debate  – de fato, a prática das Humanidades Digitais se dá, efetivamente, como constante redefinição do próprio campo.

Pretendemos, com este Seminário, explorar mais profundamente esses diferentes pontos de vista; neste momento, longe de concluir por uma definição, apenas pretendemos declarar abertos os debates.


[Para uma lsita de recursos sobre as Humanidades Digitais, ver “Ligações“]
> Humanidades Digitais no Brasil

 

[*] Cf. Kirschenbau, Matthew G. What is Digital Humanities and what is it doing in your English department?,  ADE BullEtin, 150, 2010. <http://humanidadesdigitais.files.wordpress.com/2011/09/kirschenbaum_whatisdigitalhumanities.pdf>

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